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Quando a Comunicação Muda na Demência: O que Observar e Como se Comunicar Melhor

Foto do escritor: Inntegra Gerontologia
Inntegra Gerontologia
23 de out.
7 min de leitura

Quando as palavras faltam, aprender a escutar de outras formas faz toda a diferença.


Quem convive com uma pessoa com demência provavelmente já viveu situações como estas: ela olha para uma tesoura e diz “me dá aquilo de cortar”, começa uma frase e não consegue encontrar a palavra, responde algo que parece não ter relação com a pergunta, repete várias vezes a mesma informação ou, aos poucos, deixa de participar das conversas. Para a família, nem sempre é fácil compreender o que está acontecendo: ela esqueceu? Não entendeu? Sabe o que quer dizer, mas não consegue encontrar as palavras?

A comunicação faz parte da nossa identidade. É por meio dela que expressamos desejos, necessidades, sentimentos, escolhas e histórias. Por isso, quando uma demência começa a afetar a linguagem, não estamos falando apenas de “esquecer palavras”. Essas mudanças podem repercutir na autonomia, nas relações, na participação social e na própria maneira como a pessoa passa a ocupar seu lugar dentro da família.

 

Quando a linguagem começa a mudar

A afasia é uma alteração da linguagem decorrente do comprometimento das regiões e redes cerebrais envolvidas em seu processamento e pode afetar, em diferentes graus, a capacidade de falar, compreender, nomear, ler e escrever. Ela pode ocorrer após um acidente vascular cerebral (AVC), por exemplo, mas também pode estar associada a doenças neurodegenerativas, quando as mudanças tendem a acontecer progressivamente. Quando a alteração da linguagem é predominante nas fases iniciais de uma doença neurodegenerativa, pode-se investigar uma condição denominada Afasia Progressiva Primária (APP). 


É importante, entretanto, não interpretar toda dificuldade de comunicação na demência como afasia. Alterações de memória, atenção e funções executivas, além de questões sensoriais, emocionais e outras condições clínicas, também podem interferir na maneira como a pessoa compreende e se expressa. Por isso, mais importante do que perceber uma dificuldade isolada é observar como ela surgiu, com que frequência acontece, se está progredindo e de que maneira interfere na vida cotidiana.

Uma das manifestações mais comuns é a anomia, ou seja, a dificuldade para encontrar a palavra desejada. A pessoa reconhece o objeto e sabe para que ele serve, mas não consegue acessar seu nome. Uma xícara pode se transformar em “aquele negócio que eu tomo café” e uma tesoura em “aquilo de cortar”. Também podem aparecer trocas de palavras e um uso cada vez maior de expressões genéricas, como “coisa”, “negócio” e “aquilo”. Esquecer uma palavra ocasionalmente pode acontecer no envelhecimento; o que chama atenção é quando isso se torna frequente, progressivo e começa a prejudicar as conversas ou atividades que antes eram realizadas com facilidade.



Em outros casos, a pessoa continua falando com relativa fluência, mas o discurso vai ficando menos preciso. Ela diz “Ele foi lá fazer aquilo que eu falei” ou “Aquela coisa que estava naquele lugar...”. Nesses momentos, insistir com “Mas o que você está querendo dizer?” pode aumentar a frustração. Muitas vezes é mais produtivo utilizar o contexto para oferecer pistas: “Você está falando da consulta de amanhã?” ou “Você está procurando sua bolsa?”. A comunicação deixa de ser uma espécie de teste e passa a ser construída em parceria.

Também podem surgir dificuldades de compreensão. Uma orientação como “Pegue sua bolsa no quarto, coloque o casaco e venha para a sala porque nós vamos sair” parece simples, mas exige compreender a mensagem, manter as informações na memória, organizar uma sequência e executá-la. Quando isso se torna difícil, podemos dividir a orientação: “Vamos pegar sua bolsa.” Depois: “Agora coloque o casaco.” E então: “Vamos sair.” Simplificar não significa infantilizar. Significa ajustar a quantidade de informação à capacidade de processamento daquela pessoa naquele momento, mantendo sempre uma comunicação adulta e respeitosa.

O tempo de resposta também pode mudar. Perguntamos “O que você fez ontem?” e ouvimos: “Ontem... eu... fui... com minha filha...”. É natural querer completar: “Você foi ao médico com sua filha, não foi?”. Às vezes acertamos, mas, se fazemos isso continuamente, retiramos da pessoa a oportunidade de buscar a palavra e organizar sua própria resposta. Alguns segundos de silêncio não significam necessariamente que ela não compreendeu. Dar tempo também é cuidar da comunicação.

Leitura e escrita também podem se modificar. Podem surgir erros que antes não aconteciam, troca ou omissão de letras, dificuldade para escrever frases, compreender textos ou realizar tarefas simples, como fazer uma lista ou anotar um recado. Aqui existe uma regra importante: compare a pessoa com ela mesma. Escolaridade, profissão, hábitos de leitura e oportunidades educacionais ao longo da vida influenciam essas habilidades. O que importa é perceber mudanças em relação ao que aquela pessoa anteriormente conseguia fazer. 


 

Quando a dificuldade de comunicação aparece como comportamento


Nem sempre a dificuldade se apresenta claramente como um “problema de fala”. Às vezes, ela aparece como comportamento. A pessoa pode ficar irritada diante de muitas perguntas, responder frequentemente “não sei”, evitar conversas, permanecer em silêncio, apontar ou levar o cuidador até aquilo que deseja.

Imagine alguém que está com sede, mas não consegue encontrar a palavra “água”. Ela pode caminhar pela cozinha, abrir armários, apontar para um copo ou ficar irritada diante da insistência de quem pergunta “O que você quer?”. Visto apenas como comportamento, isso pode parecer impaciência ou agitação. Mas pode existir uma necessidade concreta que a pessoa não está conseguindo transformar em palavras.

Antes de interpretar uma atitude como teimosia, desinteresse ou falta de colaboração, vale perguntar: ela compreendeu o que eu disse? Sabe o que quer responder, mas não consegue encontrar as palavras? Estou oferecendo informações demais ao mesmo tempo? Essa mudança de olhar é importante porque, quando as palavras se tornam menos disponíveis, gestos, expressões faciais, movimentos, apontamentos e até o silêncio passam a carregar parte da comunicação.

A repetição também merece esse olhar. Perguntas como “Que horas vamos embora?”, “Quem vai me buscar?” ou “Eu preciso ir para casa” podem aparecer muitas vezes ao longo do dia. Responder repetidamente “Eu já expliquei” parte do princípio de que a informação anterior continua disponível, o que nem sempre acontece. Além disso, a pergunta pode não estar buscando apenas um horário; ela pode estar comunicando insegurança: “Estou segura aqui?”, “Alguém vai voltar para me buscar?”, “O que vai acontecer comigo?”. Nesses casos, além da informação objetiva, pode ser necessário oferecer segurança: “Seu filho vem buscar você. Está tudo combinado e eu vou avisar quando estiver na hora.” Rotinas previsíveis, referências claras e uma comunicação tranquila podem ajudar.

 

Como podemos facilitar a comunicação?


Quando a comunicação começa a ficar difícil, a tendência é falar mais, explicar mais e perguntar mais. Muitas vezes precisamos fazer justamente o contrário: reduzir a quantidade de informação e aumentar a qualidade da comunicação.

Falar olhando para a pessoa, diminuir ruídos e distrações, utilizar frases curtas, oferecer uma orientação de cada vez e esperar pela resposta já pode fazer grande diferença. Quando perguntas muito abertas se tornam difíceis, podemos apresentar duas alternativas concretas — “Você prefere café ou suco?” — e utilizar gestos, objetos, fotografias e outras pistas visuais. Também não precisamos corrigir cada palavra utilizada de maneira inadequada se conseguimos compreender a intenção da mensagem. Podemos simplesmente confirmar: “Você está querendo seu casaco?”.


O objetivo não é fazer a pessoa falar perfeitamente. É permitir que ela continue conseguindo expressar necessidades, fazer escolhas, participar das conversas e manter vínculos.


Quando procurar avaliação profissional?


Uma dificuldade ocasional para encontrar palavras pode acontecer durante o envelhecimento. A avaliação profissional torna-se especialmente importante quando as alterações são frequentes, progressivas e começam a interferir no cotidiano — por exemplo, quando surgem dificuldades crescentes para compreender orientações, nomear objetos conhecidos, construir frases, acompanhar conversas, ler ou escrever. A avaliação pode envolver neurologista ou geriatra, fonoaudiólogo e outros profissionais de acordo com as necessidades da pessoa.

Na consulta, exemplos concretos costumam ser muito úteis. Em vez de apenas dizer “A fala dela piorou”, podemos relatar: “Nas últimas semanas começou a chamar vários objetos de ‘coisa’”, “Quando dou duas orientações seguidas, realiza apenas a primeira” ou “Parou de conversar durante as refeições quando várias pessoas falam ao mesmo tempo”. Esses exemplos ajudam os profissionais a compreender melhor o padrão das alterações.

Existe, porém, uma diferença fundamental: alterações relacionadas a processos neurodegenerativos tendem a evoluir progressivamente. Uma mudança súbita na fala ou na compreensão precisa de avaliação médica imediata, especialmente quando acompanhada de perda de força de um lado do corpo, assimetria facial, alteração repentina do equilíbrio ou da marcha, confusão de início abrupto ou dor de cabeça intensa e repentina. Esses sinais podem estar relacionados a uma condição neurológica aguda, incluindo AVC.

 

Comunicação também precisa ser estimulada


Quando percebemos que alguém está com dificuldade para falar, podemos começar, sem perceber, a responder por ela, fazer suas escolhas, antecipar suas necessidades e deixar de perguntar sua opinião. A intenção é ajudar, mas isso pode diminuir progressivamente suas oportunidades reais de comunicação.

Estimular a comunicação significa continuar oferecendo tempo, espaço e motivos para que a pessoa tenha algo a dizer. E isso não acontece somente por meio de exercícios com palavras. Uma fotografia pode despertar uma história; uma música conhecida pode trazer lembranças; uma receita pode recuperar palavras e experiências familiares. Jardinagem, arte, culinária, reminiscência, jogos cognitivos e situações de convivência também criam oportunidades espontâneas de expressão. Quanto mais essas experiências estiverem relacionadas à história e aos interesses daquela pessoa, mais significativas poderão ser.

Mesmo quando a fala apresenta limitações importantes, ainda podemos favorecer escolhas e participação. Uma resposta pode acontecer por meio de uma palavra, mas também de um olhar, um gesto ou um apontar. Comunicar-se não significa necessariamente construir uma frase completa. Significa conseguir, de alguma maneira, expressar desejos, preferências, necessidades e continuar participando das relações.

 

Quando as palavras mudam, precisamos aprender novas formas de escutar


A demência pode modificar a maneira como uma pessoa fala, compreende, lê e escreve, mas não elimina sua necessidade de ser ouvida, fazer escolhas, participar, pertencer e se relacionar. A comunicação também acontece no olhar, no gesto, na expressão facial, em uma música reconhecida, em uma fotografia que desperta uma lembrança e nas pequenas escolhas do cotidiano.

Quando a linguagem muda, portanto, precisamos adaptar também a nossa maneira de escutar e de nos comunicar. No Inntegra Centro Dia para Idosos, as propostas de estimulação cognitiva, convivência e participação social consideram as habilidades preservadas, a história e as necessidades de cada pessoa. Estimular a comunicação não é simplesmente pedir para alguém falar. É continuar oferecendo espaço para que essa pessoa tenha algo a dizer — e, principalmente, alguém disposto a escutá-la.

 

Luciana Kuk

Terapeuta Ocupacional e Especialista em Gerontologia e Cuidados Integrativos

 
 
 

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